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Casada, fútil, quotidiana e tributável

Casada, fútil, quotidiana e tributável

29
Out21

Resiliente

Amélia C.

Embirro solenemente com a palavra “resiliente”.  As pessoas resilientes foram um dia forçadas a sê-lo, não tiveram escolha. Não é um prémio, é uma consequência da vida de merda que têm. A resiliência não é uma medalhinha, um prémio de consolação. Ah, tu que estiveste na merda e superaste, bravo, és resiliente. Até podes servir de exemplo inspirador e tantas palminhas te vão bater pela tua partilha. Ah, que bonitas e comoventes palavras, admiro-te tanto!

A resiliência, para quem é obrigado a ser resiliente, tem muito pouco para celebrar. A memória dos tempos de resiliência é violenta, só queremos esquecê-la, não guardamos fotografias. Já nas resdes sociais é muito fotogénica. É a viagem a Veneza dos pobrezinhos. Há quem atravesse águas de esgoto  sentado numa gôndola e há quem o faça com as braçadas da tal resiliencia. Ambas dão muitos likes, mas a resiliência dá mais palestras e convites para os programas da tarde. Palestras e entrevistas geralmente organizadas por pessoas que nunca tiveram de ser resilientes. 

Já condições de vida e dinheiro para as pessoas não terem de ser resilientes, está quieto, isso são programas eleitorais, com argumentários ultrapassados, não inspiram ninguém.

Bardamerda mais à resiliência.

29
Out21

Password

Amélia C.

Perdi a password do email e como não tive para ter trabalho estive quase dois meses sem vir ao blogue. Também não me ralei. Não tinha vontade de escrever.

Minto.

Não perdi a vontade de escrever. Nunca perdi a vontade de escrever. Nunca tal me aconteceu. Mas as coisas que quis escrever ainda me doem insuportavel, insustentavelmente. A escrita é, por vezes, a eutanásia possível para acabar com algumas dores que nos dilaceram.Talvez por isso não tenha escrito durante quase dois meses. Não me apeteceu morrer mais uma vez. 

Mas, hoje, de manhã, lembrei-me que  tinha apontado a password no caderno onde estão os códigos dos bancos. Lá estava ela, escrita numa margem, a lápis. E fiquei a saber que, durante a minha ausência, tinha sido nomeada como blogue da semana no Delito de Opinião, há um mês. 

Primeiro, fiquei vaidosa. Caramba, Amélia, és mesmo formidável. Escreves meia dúzia de merdas e o pessoal nomeia-te logo.

Mas depois faltou-me o ar, saber que me lêem é como se me respirassem para cima do pescoço. Como se a minha mãe me lesse o diário outra vez.

E adivinhando a dor que voltava, voltei a escrever.

 

 

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