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Casada, fútil, quotidiana e tributável

Casada, fútil, quotidiana e tributável

23
Ago21

Estendal

Amélia C.

Cheguei mais cedo do trabalho. Estacionei o carro na praceta, por debaixo das árvores que largam uma espécie de algodão no fim da primavera. Um dos andares dos prédios em frente, tinha as cordas cheias de roupa. Os lençóis das cordas, com padrões de flores esbranquiçadas, esvoaçavam (agora faz sempre vento), tapando a roupa de vestir, mais colorida e ordenada por tipo de peças na corda da frente. Fiquei dentro do carro a observar o estendal e a lembrar-me de um estendal da minha infância, umas das mãos que me criaram a pôr as molas nos lençóis que o vento impedia que rojassem no chão, o cheiro a sabão, o vento quente e o dia do regresso a chegar, eu não quero voltar, as molas de madeira debotadas pelo sol, a prenderem o cheiro branco dos lençóis, eu não quero voltar,  tem de ser, a voz por detrás dos lençóis a dizer-me. Saí do carro, uma vizinha que passava, vendo-me olhar para o estendal dos lençóis de flores esbranquiçadas, comentou, temos de levar esta mania horrível dos estendais à próxima reunião de condomínio, parece uma aldeia, isto. Que sequem na máquina caramba. Não respondi, encostei-me ao capô do carro, a fingir que procurava alguma coisa na mala, um dos lençóis enrolou-se no ar e caiu sobre a corda da roupa colorida. Deixei-me ficar ali mais um pouco. Não me apeteceu voltar a casa.

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