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Casada, fútil, quotidiana e tributável

Casada, fútil, quotidiana e tributável

20
Ago21

Chocos com tinta

Amélia C.

Almocei sozinha, como quase sempre faço, num restaurante de bairro a uns quarteirões do escritório, longe de todos os sítios onde os meus colegas costumam almoçar. Nunca vêm aqui, ainda são quinze, vinte minutos a pé e ninguém está para isso. Preferem ir correr ao fim do dia ou treinar em ginásios onde deixam o carro à porta. Por isso, nunca vêm aqui.  O que torna este restaurante no sítio perfeito. Cheguei ao restaurante, fiz sinal ao senhor Luís, ele apontou-me a mesa, é quase sempre a mesma, a da ponta, perto da berma do passeio. Depois, trouxe o individual de papel, o prato, o pacote dos talheres e a água de meio litro, natural, disse-me o que havia hoje, perguntou-me se eu queria uma tacinha com azeitonas, disse que não, abriu o guarda-sol e voltou para dentro.

Hoje, havia chocos com tinta e carne assada com puré de batata. Escolhi a carne assada. Enquanto esperava pela comida espreitei o Facebook, nada de novo, nada que interesse, deitei o olhar na rua esvaziada pelo mês de Agosto e reparei nos cantos da boca, pretos pela tinta dos chocos, do homem sentado na mesa ao lado. Fez-me impressão, especialmente quando levou o guardanapo à boca e o tingiu de preto azulado. Desviei o olhar, enojada e reparei que as tílias já estão a amarelecer (não sei se são choupos, se são tílias, que a mim as árvores parecem-me quase todas iguais), que já há algumas folhas no chão, que as pessoas batem muito com os talheres no prato, que muitas têm o péssimo hábito de pôr os cotovelos em cima da mesa, que falam estupidamente alto, que o prédio da frente tinha o painel das campainhas arrancado, que um dos caixotes do lixo estava a transbordar com embalagens do Mac Donalds que há a duzentos metros, que cada vez há mais velhos na rua, que a carne assada vinha fria, com o molho cheio de bolhas de gordura e o puré com grumos,  e que de há uns anos para cá faz sempre vento na Cidade. Pedi a conta e o café, o homem dos chocos rapava agora, ruidosamente, a taça do arroz doce, guardei a garrafa com o resto da água na mala de imitação de pele que comprei numa dessas lojas de roupa baratas, que têm sempre a música aos berros e cheias de miúdas da idade das minhas filhas e fiz a caminhada de volta. Esta hora de silêncio, a três quarteirões da minha vida insuportável, faz maravilhas à pouca sanidade mental que me resta.

15
Ago21

Insónia numa noite quente

Amélia C.

Por causa do calor ontem tive uma noite de insónia e vim até à  varanda, na esperança de um bocadinho de fresco. Não soprava uma aragem, as árvores da praceta estavam imóveis, não se movia uma folha. No prédio ao lado um vizinho e o seu cigarro faziam a mesma coisa que eu. As luzes da rua, mais três janelas iluminadas, quebravam a escuridão. Numa rua perto, alguém  riu-se por cima de uma voz mais grave que gritava qualquer coisa,  foram esmorecendo à medida que se afastavam, as vozes e um carro que passou e depois outro e ainda outro. O meu vizinho e o seu cigarro continuaram no mesmo sítio. Abri duas cadeiras, uma para me sentar e outra para pôr os pés, encostei-me ao gradeamento e fiquei ali, a pensar em todas as coisas que normalmente me tiram o sono nas noites em que não faz tanto calor. As coisas que se sucedem, umas atrás das outras e que tornam as noites enormes e insuportáveis.  O meu vizinho pigarreou e eu abri o Facebook no telemóvel, corri o feed com o indicador. Surgiu uma notificação nas mensagens. “Estás acordada?”, perguntou-me a Ana. Não abri a mensagem e saí da aplicação. Não quero que as pessoas saibam das minhas insónias, não quero que me façam perguntas sobre o que me preocupa, que me aconselhem Dormidina, chá de camomila, leite quente, música calma. Não quero que as pessoas saibam o que dói, o que me tira o ar, o que me faz deambular pelo silêncio da noite. Pareceu-me que se levantou uma aragem pelo restolhar das folhas das árvores, sentia-a pouco depois na transpiração do pescoço, o que, estupidamente me trouxe uma grande tranquilidade. Uma das janelas apagou-se, ficaram só duas, eu, o meu vizinho e o seu cigarro a quebrarmos a escuridão

12
Ago21

Liberdade

Amélia C.

Há pouco, na copa, a Rafaela dos recursos humanos, enquanto bebia café, comentava com a Tânia da contabilidade que este ano ela e o namorado tinham alugado uma autocaravana para, durante as férias, conhecerem o Sudoeste Alentejano.

- Descobrimos cada praiazinha maravilhosa! Desertas, sem ninguém, a praia toda para nós. Foi a liberdade total – soltou um risinho, enquanto nos piscava o olho – Até nadámos despidos!

A Tânia da contabilidade, que antes da pandemia viajava imenso, rebateu que a verdadeira liberdade era viajar. Ah, só sou realmente livre quando viajo, disse. Ficaram ali as duas a debater o sentido da liberdade enquanto eu procurava no frigorífico, que tresanda a azedo, os pacotinhos de natas para pôr no meu café, que as cápsulas de marca branca à disposição dos funcionários são uma bela surraipa. As da Nespresso estão guardadas para os clientes. Não havia natas, tive de pôr açúcar. Encostei-me ao lava-loiça e fiquei a ouvir as suas dissertações sobre se sentirem muito livres.

Ninguém é livre, pá, pensei. Somos todos reféns de alguma coisa: do empréstimo da casa, das horas dos filhos, do sentimento de culpa que os nossos pais nos incutiram, da tendência para engordar, das dívidas, da falta de dinheiro, do que os outros vão pensar de nós, do que os outros dizem de nós, da idade, das nossas mentiras, das verdades inconfessáveis, dos nossos podres, da nossa preguiça, da nossa falta de talento, das expectativas, dos medos, das insónias, do que publicamos no Facebook. Ninguém é livre. Só os mortos são livres. A liberdade é uma ilusão para nos manter vivos. E se finalmente nos acontece, depois de uma grande clausura, dói. Dói tanto que acabamos por recorrer ao analgésico de outra prisão qualquer.

Ninguém é livre, pá, deixem-se de merdas e de arrotar postas de pescada! Somos todos reféns das nossas vidas merdosas. Imaginei-me a dizer-lhes isto, até porque não as suporto. Mas não disse. Acho que a Rafaela dos recursos humanos anda enrolada com o chefe do meu departamento e eu não quero chatices.

11
Ago21

Tapete

Amélia C.

Não suporto a minha vizinha do quinto direito. É uma sessentona com a mania que é uma pessoa muito importante, muito culta, muito vivida. Toca piano. Antes da pandemia dava uns saraus, frequentados por pessoas com ar de serem “do meio". Vive com o marido, um velho careca, que tem um ar muito sofrido e tem um poodle irritante, que ladra  sempre que ela toca piano e que tinha o hábito de mijar o tapete da entrada do prédio. Uma nojice. Por causa disso peguei-me com ela numa reunião de condomínio. Ela ficou muito ofendida, como ficam sempre muito ofendidas as pessoas intocáveis a quem se lhe chama justamente a atenção. Nunca mais me cumprimentou. Paciência, isso é para o lado que durmo melhor. Mas nos primeiros tempos, a seguir à zaragata na reunião de condomínio, tornou-se estupidamente simpática para toda a gente no prédio. Ficava na rua a falar com as pessoas, a perguntar pela família, pela saúdinha, se aquela infiltração que tinha causado tanta maçada já estava resolvida, ah, há tanto tempo que não o via, já estava a ficar preocupada... Depois olhava de soslaio para a minha varanda, como quem diz, vês, eu sou uma grande senhora, toda a gente gosta de mim, só tu, minha ordinária, que sabe-se lá de onde vens, é que tiveste a ousadia de me indispor. 

Sim, sou realmente uma grande ordinária. Mas ao menos o cão dela deixou de mijar o tapete da entrada do prédio.

10
Ago21

Fim da linha

Amélia C.

Na empresa puseram-me a trabalhar com a miúda nova. É ela quem agora me orienta. Eu, na meia-idade, sou agora orientada por uma miúda que ainda não fez trinta anos, sete ou oito anos a mais que a minha filha mais velha, mas que já esteve à frente do marketing de uma grande empresa nacional. Eu, que à conta de uma depressão e da Troika, estive quase dez anos a marcar passo na carreira, ando a receber ordens e formação de uma miúda. Sinto-me totalmente ultrapassada. Humilhada. A miúda até é gentil, cuidadosa. Não se põe em bicos dos pés. Mas sinto-me velha. Fico a olhá-la, toda jeitosa, sem a cara a ficar pendurada na linha do queixo, sem olheiras nem rugas a encovarem-lhe os olhos, sem banhas nas costas a verem-se nas t-shirts com frases parvas e bonecada que já não é para a minha idade, sem um cú que já não enche as calças e cai pelas pernas abaixo. Ela sabe  vestir-se, deve ter um moodboard no Pinterest, com os outfits a usar. Eu nem dizer estas palavras sei, as minhas filhas estão sempre a emendar-me, a rirem-se, ó mãe não é assim que se diz.

Os homens que trabalham na empresa dão-lhe toda a atenção quando estão ao pé dela. Depois, esta rapariga percebe muito mais daquilo que faz do que eu, usa termos em inglês que tenho de ir pesquisando sorrateiramente no Google para saber o que querem dizer. Manda-me links com coisas para eu aprender. Mas cada vez menos me apetece aprender coisas novas. Aliás, a primeira vontade que tenho, sempre que ela me manda um link novo, é responder-lhe torto, mandá-la à merda. Mas é o orgulho ferido a falar mais alto e o orgulho não paga contas. Mas esta miúda fere-me de morte todos dias. A sua gentileza humilha-me. Tornei-me numa sobra invisível, sem nada para ensinar. Nada do que sei interessa a alguém. Ninguém quer saber. No fundo, detesto-a por me fazer sentir permanentemente acabada, medíocre. Detesto-a sempre que tem de me explicar alguma coisa, fá-lo com gentileza, mas, no fundo, eu sei que é condescendência. Detesto o seu cuzinho empinado, as suas unhas de manicura retocadas à sexta-feira, a sua roupinha impecável.

Chegaste ao fim da linha, Amélia, agora já só trabalhas para pagar contas, para continuares a descontar para a reforma, para ensinares como é que se tiram nódoas de sangue, como se cortam os pés das flores para que durem mais nas jarras e para estranhares as coisas que as tuas filhas te contam, não era assim quando tinhas a idade delas, já nem te lembras como eras, fazes um esforço, mas essa miúda que foste já se perdeu. Já não serves para nada, Amélia. Ninguém quer saber do que tu achas nem do que tu sabes, o que tu sabes já não se usa, é totalmente inútil. Cala-te, Amélia. Faz o que a miúda te diz, aproveita para aprender qualquer coisa, paga as contas e cala-te. Não serves para mais nada.

09
Ago21

Varanda

Amélia C.

Ontem à noite, fui sentar-me à varanda. No Verão passado, a minha filha mais velha transformou-a numa daquelas varandas muito fotografáveis do Instagram.  Tem uma mesa pequena com umas cadeiras, uma estante metálica com vasos, o parapeito forrado com palhinha e umas gambiarras penduradas nas paredes. Abri uma das cadeiras, encostei-a de lado ao parapeito e fiquei a olhar para o silêncio da praceta àquela hora. Uma das portas dos  prédios abriu-se devagarinho, quase sem fazer barulho. Não preciso espreitar, a esta hora, com a porta a fechar sorrateira, já sei quem é.  É o meu vizinho do prédio ao lado. Durante o confinamento, quase todas as noites, vinha até à praceta, entrava dentro do carro e ficava lá quase uma hora. Às vezes, por ter o vidro aberto, ouvia-se música. Ficava dentro do carro, sozinho, às vezes, fumava um cigarro, cá de cima via-se o pontinho incandescente sempre que estendia o braço pela janela do carro para sacudir a cinza. Ficava ali, assim, durante quase uma hora, sem fazer mais nada. Depois voltava para casa. Talvez procurasse silêncio. Talvez quisesse limpar a cabeça da mulher e filhos, de quem, provavelmente, já estaria farto. Agora que o teletrabalho deixou de ser obrigatório, largou este hábito. Só o voltou a fazer hoje, talvez a mulher o tenha chateado com  alguma coisa. Talvez os miúdos estejam insuportáveis. Talvez a casa cheire a fritos ou a incenso, deve ser a incenso, a mulher tem ar de quem queima paus de incenso.

Ouviu-se outra porta no silêncio da praceta. É o vizinho que vem telefonar às escondidas com o pretexto de vir pôr lixo. Faz a chamada debaixo das árvores, demora uns cinco minutos. Depois sobe. Fez isto todos os dias, à mesma hora, durante  os dois confinamentos. Deve ter uma amante. O vizinho do carro saiu, ouviu-se o apito do trancar da porta, os faróis do carro piscaram duas vezes e a tampa do lixo  fechou-se. Cruzaram-se os dois por debaixo das árvores. Pareceu-me ouvir “boa noite”, mas a minha filha mais nova chegou à varanda e perguntou se eu queria que ela ligasse as luzes das gambiarras.

- Deixa estar, estou assim bem no escuro.

07
Ago21

Mira técnica

Amélia C.

Aborreci-me com o Facebook. Como sou uma pessoa muito superior a estas coisas, que não precisa de palmadinhas nas costas, uma pessoa muito segura de si, vivida, independente, que não está para aguentar certo e determinado tipo de coisas, resolvi fazer uma pausa nas redes sociais.

Mas antes, decidi fazer uma publicação a comunicar a minha irreversível decisão. Escolhi uma fotografia no Google, uma mira técnica. Sou tão original, meu deus. E que sentido de humor, que sagacidade! Bem sei que pode revelar um bocadinho a minha idade, mas isso seria o de menos.

E escrevi um pequeno texto, muito sarcástico, muito inteligente, sublinhando a quantidade de coisas que tenho para fazer, não pensem que sou uma desocupada só porque publico às três, quatro, cinco vezes por dia no Facebook. Terminei com um desprendido, "Até um dia destes". Vá morram de saudades das minhas publicações brilhantes, não me merecem, seus básicos.

Publiquei, triunfante. Depois fiquei online, a ver quem fazia like, quem me dizia "volta depressa". Foram pouquíssimas  as reacções. Foram fazer likes para outro sítio. Carneirada! Consultei o Facebook depois do jantar, antes de me deitar e, no dia seguinte, foi a primeira coisa que fiz logo que acordei. Nada. Ninguém me ligou nenhuma.  Só a mira técnica abandonada por esses feeds alheios e os vendidos dos meus seguidores a mudarem de perfil, como quem muda de canal. "Aqui agora já não dá nada", devem ter pensado.

Primeiro senti-me melindrada, um pouco ofendida, até. Depois senti-me ridícula. Depois quase, quase, envergonhada. Mas antes que isso beliscasse a minha auto-estima, pensei, as pessoas são uma merda. Uma bela merda. E comecei a escrever um post sobre isso. Ficou um texto mesmo bom, capaz de arrebanhar uns bons likes. Se calhar volto daqui a dias.

 

06
Ago21

O idílio dos simples

Amélia C.

Chamei o elevador. Quando abri a porta vi que a minha vizinha do quinto também descia. Cumprimentei-a. Ela levantou os olhos do telemóvel por um instante, subiu a máscara que trazia por debaixo do queixo e retribuiu-me com um bom dia sussurrado. Descemos três andares em silêncio e, começando a coreografia diária, abri a porta do elevador, dando-lhe passagem, obrigada, disse ela, descemos os cinco degraus do patamar, depois ela carregou no trinco da porta da rua, dando-me passagem a mim, obrigada, disse eu. Cá fora a manhã estava quente, páramos um instante no patamar, ela tirou as chaves do carro de dentro da mala, sorrimos, mesmo sabendo que só se nos viam os olhos e seguimos em direções opostas.

Não sei o nome desta minha vizinha, assim como não conheço nenhum dos meus vizinhos do prédio. Vivemos cá há cinco anos e só os conheço por alguns hábitos, como o ouvir e fechar as portas, os saltos no soalho, os gritos das crianças pequenas. Enquanto vivi na Vila também só conhecia de vista os meus vizinhos.  Mas, alguns deles, os que eram da terra, conheciam-me a mim, sabiam quem eu era. Quando se chega a uma terra pequena as pessoas procuram saber quem somos. Para eles eu sempre fui a estrangeira, a que não tinha laços nem raízes nem família dali, a que viera à procura de um idílio rural. A que gerava desconfiança por não ser de lá, por não ser como eles.  A que merecia um cumprimento educado mas cujas filhas eram postas de lado, substituídas pelas filhas das amigas de escola das mães. Ou das primas em primeiro, segundo, terceiro, quarto grau, mas ainda de sangue. As amizades, nas terras pequenas, fazem-se com quem é de lá. Que vem de fora não serve para isso. Quem vem de fora cumprimenta-se com cortesia, mas sempre por cima do muro, com vedação de alumínio verde para que não metam o nariz, para que não saibam demais, sabe-se lá quem são estes que vieram para aqui. As terras pequenas expulsam quem vem de fora de modo lento e doloroso,  como os nossos corpos expulsam os lenhos que se nos cravaram na pele e na carne.

Nas cidades há um desprendimento e uma solidão que assustam. A cidade recebe-nos com pré-aviso de que nada mais haverá em troca. Mas a solidão das terras pequenas, fruto de uma cruel expectativa de proximidade, não é melhor. O idílio dos simples só fica bem na literatura.

05
Ago21

Mulher de Lot

Amélia C.

Quando regressámos à cidade quis esquecer a vila onde vivêramos durante onze anos. Saí de lá, dessa vila onde fomos infelizes, sem olhar para trás. Eu tentei nunca mais pensar no jardim de alfazemas e alecrim, na parede coberta pela vidreira brava, na linha do horizonte acinzentada pelas nuvens do mar, no cumprimento do meu vizinho do lado, no chiar do portão da frente, luz ampla que escorria no chão da sala ao fim da tarde, no meu choro sentado em cima da cama, nas minhas filhas sozinhas, sentadas nos banquinhos de tecido vermelho e ramadas brancas, a verem televisão, mãe, não vens? Do medo sempre que o carteiro batia à porta, nas minhas esperanças vãs, nas minhas desilusões, nas minhas vergonhas, nos meus erros, na minha culpa, na minha culpa, na minha culpa, mãe, não vens? Já vou, eu a dizer de voz sumida, a desejar que elas desaparecessem, que se calassem, que não me chamassem, que nunca tivessem nascido e a odiar-me profundamente por desejar isso, enquanto me transformava lentamente em sal e o portão chiava por causa do vento, estava sempre vento, batendo no trinco estragado, já vou, a luz de fim de tarde a escoar-se dos meus pés e a arrastar-me de novo para a escuridão, já vou, eu a agarrar-me a mim mesma para não perder o pé. Já vou. Mas não olho para trás.

04
Ago21

Invisibilidade

Amélia C.

A meia-idade trouxe-me uma certa invisibilidade. É estranho entrar nos sítios sem que os olhares se voltem para nós. É estranho perceber que não nos desejam. Que somos um corpo que já não merece atenção. Podemos caminhar por entre as pessoas sem que estas dêem por nós. Mas confesso que, passada a estranheza, essa invisibilidade é, de certo modo, confortável.

É um grande conforto largarmos o corpo ao qual nos exigiram que fosse bonito. A minha mãe ficava muito feliz quando diziam que eu era bonita. Cedo percebi que era um grande motivo de orgulho, uma grande expectativa para um futuro, sendo que o futuro para muitas mulheres, como a minha mãe, se confundia com "bom casamento". E eu ficava aliviada por lhe proporcionar essa felicidade. Lembro-me que o seu maior medo, quando tive varicela, foi que eu ficasse com marcas. Um rosto com umas feições tão correctas vai ser uma tristeza se ficar com marcas de bexigas, dizia ela. Tive sorte, não fiquei com marcas nenhumas. E a minha mãe sorriu de alívio e eu sorri também, não de alívio, mas por saber que assim ia continuar a ser amada.

Com a puberdade a minha beleza foi-se. Tornei-me numa adolescente feia e desajeitada. O meu cabelo tornou-se grosso e crespo, as mamas sobravam-me em todos os soutiens, engordei muito . A minha mãe passou a olhar-me com uma grande desilusão e eu percebi que já não merecia ser amada. Para evitar aquele olhar e a troça dos outros adolescentes, pedi muito para ser invisível. Mas toda a gente gosta de reparar na fealdade dos outros. Enquanto reparamos nos outros, podemos continuar a fugir de nós. É um instinto de sobrevivência como outro qualquer. Fui durante muitos anos, de forma incomodamente visível, essa adolescente gorda, feia e desajeitada. Continuei a ser essa adolescente mesmo depois de ter perdido peso. E ainda era assa adolescente quando me voltaram a dizer que eu era bonita. E também ainda o era  quando já era muito amada. A varicela não me deixou marcas, mas esses anos na adolescência deixaram muitas.

Talvez por isso esta invisibilidade da meia-idade  me seja um alívio tão grande. Como se me tivessem tirado um imenso fardo, uma insuportável obrigação de ser bonita. Esta invisibilidade tirou o poder do olhar dos outros.

Olho-me ao espelho e não me reconheço. Respiro fundo. É um alívio voltar a ser uma estranha.

 

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