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Casada, fútil, quotidiana e tributável

Casada, fútil, quotidiana e tributável

11
Ago21

Tapete

Amélia C.

Não suporto a minha vizinha do quinto direito. É uma sessentona com a mania que é uma pessoa muito importante, muito culta, muito vivida. Toca piano. Antes da pandemia dava uns saraus, frequentados por pessoas com ar de serem “do meio". Vive com o marido, um velho careca, que tem um ar muito sofrido e tem um poodle irritante, que ladra  sempre que ela toca piano e que tinha o hábito de mijar o tapete da entrada do prédio. Uma nojice. Por causa disso peguei-me com ela numa reunião de condomínio. Ela ficou muito ofendida, como ficam sempre muito ofendidas as pessoas intocáveis a quem se lhe chama justamente a atenção. Nunca mais me cumprimentou. Paciência, isso é para o lado que durmo melhor. Mas nos primeiros tempos, a seguir à zaragata na reunião de condomínio, tornou-se estupidamente simpática para toda a gente no prédio. Ficava na rua a falar com as pessoas, a perguntar pela família, pela saúdinha, se aquela infiltração que tinha causado tanta maçada já estava resolvida, ah, há tanto tempo que não o via, já estava a ficar preocupada... Depois olhava de soslaio para a minha varanda, como quem diz, vês, eu sou uma grande senhora, toda a gente gosta de mim, só tu, minha ordinária, que sabe-se lá de onde vens, é que tiveste a ousadia de me indispor. 

Sim, sou realmente uma grande ordinária. Mas ao menos o cão dela deixou de mijar o tapete da entrada do prédio.

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