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Casada, fútil, quotidiana e tributável

Casada, fútil, quotidiana e tributável

09
Ago21

Varanda

Amélia C.

Ontem à noite, fui sentar-me à varanda. No Verão passado, a minha filha mais velha transformou-a numa daquelas varandas muito fotografáveis do Instagram.  Tem uma mesa pequena com umas cadeiras, uma estante metálica com vasos, o parapeito forrado com palhinha e umas gambiarras penduradas nas paredes. Abri uma das cadeiras, encostei-a de lado ao parapeito e fiquei a olhar para o silêncio da praceta àquela hora. Uma das portas dos  prédios abriu-se devagarinho, quase sem fazer barulho. Não preciso espreitar, a esta hora, com a porta a fechar sorrateira, já sei quem é.  É o meu vizinho do prédio ao lado. Durante o confinamento, quase todas as noites, vinha até à praceta, entrava dentro do carro e ficava lá quase uma hora. Às vezes, por ter o vidro aberto, ouvia-se música. Ficava dentro do carro, sozinho, às vezes, fumava um cigarro, cá de cima via-se o pontinho incandescente sempre que estendia o braço pela janela do carro para sacudir a cinza. Ficava ali, assim, durante quase uma hora, sem fazer mais nada. Depois voltava para casa. Talvez procurasse silêncio. Talvez quisesse limpar a cabeça da mulher e filhos, de quem, provavelmente, já estaria farto. Agora que o teletrabalho deixou de ser obrigatório, largou este hábito. Só o voltou a fazer hoje, talvez a mulher o tenha chateado com  alguma coisa. Talvez os miúdos estejam insuportáveis. Talvez a casa cheire a fritos ou a incenso, deve ser a incenso, a mulher tem ar de quem queima paus de incenso.

Ouviu-se outra porta no silêncio da praceta. É o vizinho que vem telefonar às escondidas com o pretexto de vir pôr lixo. Faz a chamada debaixo das árvores, demora uns cinco minutos. Depois sobe. Fez isto todos os dias, à mesma hora, durante  os dois confinamentos. Deve ter uma amante. O vizinho do carro saiu, ouviu-se o apito do trancar da porta, os faróis do carro piscaram duas vezes e a tampa do lixo  fechou-se. Cruzaram-se os dois por debaixo das árvores. Pareceu-me ouvir “boa noite”, mas a minha filha mais nova chegou à varanda e perguntou se eu queria que ela ligasse as luzes das gambiarras.

- Deixa estar, estou assim bem no escuro.

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